INSS sob pressão: atuação de 167 peritos levanta dúvidas sobre negativas de benefícios

Criança em ambiente acolhedor representando proteção a dependentes de vítimas de feminicídio`

Patrícia Steffanello | Assessoria de Comunicação

Imagem: Pixabay

A recente decisão do Ministério da Previdência Social de suspender o acesso de 167 peritos médicos federais ao sistema Atestmed trouxe uma discussão importante para segurados, advogados e profissionais que atuam no Direito Previdenciário.


A medida foi adotada após a identificação de indícios de análises realizadas com elevado índice de indeferimentos e possíveis inconsistências nos critérios utilizados para a avaliação dos pedidos de benefício por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença.


Embora as apurações ainda estejam em andamento e não exista conclusão definitiva sobre a atuação individual dos profissionais envolvidos, o episódio levanta questionamentos relevantes sobre a necessidade de fundamentação adequada das decisões administrativas do INSS e sobre a qualidade das análises realizadas por meio documental.


O que é o Atestmed?

O Atestmed foi criado para permitir a concessão do benefício por incapacidade temporária a partir da análise de documentos médicos apresentados pelo segurado, dispensando, em determinadas situações, a realização de perícia médica presencial.


O objetivo do sistema é reduzir filas, agilizar o atendimento e permitir maior eficiência na análise dos pedidos previdenciários.

Na prática, entretanto, a agilidade do procedimento não pode comprometer um dos princípios mais importantes da Administração Pública: a análise individualizada de cada caso concreto.


O que motivou a revisão dos procedimentos?

De acordo com as informações divulgadas pelo Ministério da Previdência Social, foram identificados padrões considerados atípicos em parte das análises realizadas, incluindo índices de negativas significativamente superiores à média e utilização de fundamentações semelhantes em diversos processos.


Diante desses indícios, os casos estão sendo submetidos a nova avaliação por outros médicos peritos federais.


A medida possui caráter cautelar e busca garantir maior segurança e confiabilidade às decisões administrativas relacionadas aos benefícios por incapacidade.


O que é o vício de motivação administrativa?

Toda decisão do INSS deve apresentar fundamentação clara, específica e compatível com os documentos apresentados pelo segurado.


Isso significa que laudos médicos, exames, relatórios clínicos e demais provas juntadas ao processo precisam ser efetivamente analisados e considerados na decisão administrativa.


Quando a decisão apresenta justificativas genéricas, padronizadas ou deixa de enfrentar os elementos relevantes do processo, pode haver o chamado vício de motivação administrativa.


Nessas situações, a legalidade da negativa pode ser questionada tanto na esfera administrativa quanto no Poder Judiciário.


Toda negativa do Atestmed é irregular?

Não. A existência de investigações ou revisões em determinados procedimentos não significa que todos os indeferimentos realizados pelo sistema sejam inválidos ou que todo segurado tenha automaticamente direito ao benefício.


O reconhecimento do direito ao auxílio por incapacidade continua dependendo da comprovação dos requisitos legais, especialmente da existência da incapacidade laboral e do cumprimento das exigências previdenciárias aplicáveis ao caso concreto.


Por outro lado, segurados que receberam negativas baseadas em justificativas genéricas ou que tenham indícios de ausência de análise adequada da documentação podem ter motivos para revisar a decisão administrativa.


O que o segurado deve fazer em caso de negativa?

Ao receber uma decisão desfavorável, é importante analisar cuidadosamente a fundamentação apresentada pelo INSS e verificar se os documentos médicos enviados foram efetivamente considerados.


Dependendo das circunstâncias, podem existir alternativas como:

  • apresentação de recurso administrativo;
  • formulação de novo pedido com documentação complementar;
  • ajuizamento de ação judicial para revisão da decisão;
  • solicitação de perícia médica judicial quando necessário.


Cada situação exige análise individualizada e avaliação técnica da documentação médica e previdenciária envolvida.


Um debate que vai além deste caso



O episódio evidencia um desafio estrutural enfrentado pela Previdência Social brasileira: equilibrar a necessidade de reduzir filas e acelerar análises sem comprometer a qualidade técnica e a individualização das decisões.


Eficiência administrativa e segurança jurídica não devem ser objetivos concorrentes, mas complementares.


Em matéria previdenciária, decisões administrativas impactam diretamente a subsistência de trabalhadores e suas famílias, razão pela qual a análise cuidadosa das provas e a adequada fundamentação das decisões permanecem como requisitos indispensáveis para a proteção dos direitos dos segurados.


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